Calma, não somos imortais?
Esse texto foi escrito por Oltiel e foi postado originalmente no site Medium.
"A mortalidade só existe quando lembramos ou falamos dela, já perceberam isso?
Vivemos
o presente sem ficar pensando na nossa eventual e inevitável morte. E,
claro, ainda quando se pensa na morte, não é numa acidental ou
prematura; é numa que deveria ocorrer “naturalmente” quando atingimos o
ápice de nossa velhice, quando o corpo não aguenta e definha.
Voltando
ao início, enquanto a morte não é comentada, somos imortais. Tudo é
imortal. Escrevo esse texto por causa de um gato de estimação, o Lelo.
Mas
o que houve com o Lelo? Bem, digamos que ele não esteve bem de saúde.
E, vendo pelo caso dele — muito similar ao de outro gato, agora
falecido — de repente meu mundo desabou. E desabou frente a um fato mais
do que óbvio: ele vai morrer.
Talvez não agora ou em breve, mas um dia ele vai morrer. Um dia ele vai me deixar. Que absurdo! Como pode meu Lelinho morrer?
Novamente,
vivemos uma imortalidade ilusória. Porque não sentimos necessidade de
lembrar a todo segundo que a morte é o destino final. E que insuportável
seria ficar lembrando isso. Mas a questão real não é essa.
A
questão é que eu estava até agora vivendo como se essa criatura peluda e
amarela e fofa fosse me acompanhar pelo resto da vida. Da minha vida. E
porra, olha como sou; ignorei o fato deque um gato não vive o mesmo
tempo que um ser humano vive em média.
E aqui estava eu vivendo o momento como se Lelo fosse estar junto comigo por anos e anos e anos e mais anos.
Esse
gato me irrita às vezes. Ele mia alto, mia muito, pede para eu abrir a
porta do quarto e fica me olhando, me engana pedindo pra sair do quarto e
aí rouba minha poltrona. E ele é arisco, não posso nem pegar o bendito
no colo.
De repente, eu me vi perdendo tudo isso…
Por
uns momentos visualizei eu num mundo onde não tem um gato chato miando
na porta do quarto e roubando minha poltrona. Nem abrindo as portas
(sim, ele sabe abrir porta). Um mundo onde não tem um gato chato me
encarando enquanto escovo os dentes. Ou rolando no chão, fazendo graça.
Ou rolando na minha cama, pedindo carinho na barriguinha. Ou se enfiando
na coberta dobrada que deixo no final da cama (e ele faz isso até no
calor!).
De
repente, o Lelo se tornou o que ele sempre foi, e o que também sou: um
ser mortal. Algo que nasce, cresce, vive e morre. Algo que não dura.
Às
vezes fantasiamos com a imortalidade. Ficamos imaginando como seria
“bom” que as pessoas e nossos bichinhos durassem para sempre. Que nós
durássemos para sempre. Mas não, isso seria horrível. Tudo está fadado a
acabar. E que bom que as coisas acabam!
Que
bom que os dinossauros acabaram. Que bom que a Idade das Trevas acabou.
Que bom que o Orkut acabou. Que bom que o Pânico na TV acabou.
Tudo tem que acabar. Lelo tem que acabar. Eu tenho que acabar.
E
talvez a imortalidade exista, mas ela não é orgânica. Ela é simbólica.
Metafísica, talvez? Se raciocinarmos que o passado não muda, o Lelo
sempre existirá nas linhas temporais do Universo; nada pode apagar a
existência dele.
E
mesmo que ele morra, eu sempre lembrarei dele. Eu sou um registro da
existência dele. Eu sempre saberei que ele existiu, que eu e ele
compartilhamos anos juntos.
O
mesmo ocorre com as pessoas; elas se tornam imortais quando são
lembradas. Quanta gente já não virou poeira e ainda tem seu nome citado
por aí? A História imortaliza!
Por
fim, realmente, tenho que estar pronto para perdê-lo. Isso se eu não
cair naquelas probabilidades azarentas e acabar morrendo antes dele. Mas
não vou considerar isso. A mensagem aqui é que eu lembrei da
mortalidade. Ela está aí. Ela é o fim. Ela não é boa ou má, ela é o que
é.
Minha
tia acredita que ele possa ser tratado. Assim ele poderá aproveitar mais
sua vida e nós poderemos aproveitar mais sua companhia. E espero que
ele tenha uma boa velhice. Que ele vá quando tiver que ir.
No momento, ele passa bem. Continua sendo um chato. Um chato que não é imortal. Mas meu chatinho."
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| by lzlsanatomy |


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